"O Sétimo Selo" e a necessidade de mediação para acessar o divino


Quando o Cordeiro quebrou o sétimo selo, houve silêncio no céu durante quase meia hora (Ap 8:1)

Em tempos de pandemia, "O Sétimo Selo", clássico dirigido por Bergman, tem singular pertinência. 

O protagonista Antonius Block (Max von Sydow) participou das cruzadas defendendo com a vida a fé cristã. Na volta para casa, a Morte (Bengt Erekot) avisa que sua hora é chegada. O astuto Block barganha que joguem xadrez: mesmo sabendo que irá perder, consegue alguns momentos de vida a mais.

Em sua jornada, Block descobre que a peste negra assola sua terra natal. O caos generalizado acentua sua angústia: onde estaria Deus? De que valeram os anos de sua vida defendendo a cruz?

Alguns respondem com a previsão escatológica: o fim está próximo. A irracionalidade impera, pois os portadores dessa mensagem praticam suplícios públicos: em um show de horrores, andam de povoado em povoado exibindo suas penitências. A representação lembra os profetas de Baal contra Elias, em que se cortavam com facas na esperança de serem ouvidos pela divindade (ver 1Reis 18). Onde estaria Deus? 

Block pondera procurar o Diabo, pois talvez soubesse como encontrá-lo. Mas a angústia do protagonista permanece: onde estaria Deus? 

Ao longo da história da Igreja (e das religiões) é recorrente a justificativa de que o divino só se revela a alguns poucos escolhidos, cabendo ao povo em geral se contentar com o mistério. 

Contudo, os evangelhos são assertivos: essas restrições não existem mais. O véu foi rasgado, o Santo dos Santos está ao alcance de todos. Essa é a mensagem de Jesus: "Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim". Jesus, o Filho de Deus mas nem por isso menos Deus, passa a ser o caminho para Deus Pai. Elimina-se a necessidade de sacerdotes para intermediar a relação.

Na Reforma Protestante, quando do ápice do exercício do poder centralizado pela Igreja (Católica Romana), Lutero reinvindica que a revelação divina se dá por meio das Escrituras Sagradas, sem necessidade de mediação por sacerdotes, acessível por qualquer indivíduo.

Ao longo da história, as organizações religiosas (igrejas) têm sistematicamente retornado à lógica da exclusividade, como se o povo em geral dependesse da intermediação de bispos, apóstolos, pastores ou qualquer título que se arroguem.

A angústia permanece. A incerteza e a irracionalidade em tempos de peste também. 

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